
Amanhã completo dois meses de operada. Ainda não caiu a ficha de que me submeti a uma cirurgia tão grave e arriscada. No meu peito ainda tem um troço qualquer bloqueado que me impede de chorar mesmo que eu sinta vontade. Não sei como definir esse sentimento, essa sensação.
Cada vez que tento analisar esses últimos dias, desde a tomada da decisão até hoje, sinto que falta alguma coisa, a peça que vai ligar todas as demais, fazendo com que a minha escolha tenha sentido.
Quando paro para pensar, percebo que só o grande desespero de quem se percebe próximo da morte sem estar pronto para ela é que pode ter sido o motor desta decisão de me submeter a uma gastroplastia. Não sei se o desespero pode ser bom conselheiro mas acho que, no meu caso, me senti sem escolhas. Já tinha tentado de tudo para emagrecer e me via engordando mais e mais a cada novo tratamento, a cada novo remédio. Minha alegria estava indo para o buraco, mau-humor constante por ter que me arrastar para manter minhas atividades normais, por perceber que estava sendo preterida profissionalmente por não ter um visual aceitável, por tudo estar cada dia mais difícil e por estar sentindo a vida escorrer com o meu suor.
Grampear o estômago não é mole. Quem diz que é fácil deve ser doido, totalmente sem noção. A parte mais fácil, acreditem, é ficar vivendo a base de líquidos durante um tempo. Você fica meio mole, meio fraco, mas como não está fazendo nada mesmo, não faz diferença. E ainda tem o bônus de perder peso rápido. Eu larguei em dez dias, 11 quilos. Sabe o que é deixar tudo isso para trás em tão pouco tempo? Mas quando você já está cheio de tomar sopinha e suquinho percebe que já está na hora de enfrentar purê de batatas e carne moída. E o medo de arrebentar tudo? Então, você pega aquele pingo de carne no garfo e mastiga até o queixo ficar dolorido. Leva um tempo até você conseguir calibrar a quantidade, até aprender a não iniciar a refeição com muita fome ou ansioso, pois isso é entalada na certa. Mas você é humano e às vezes faz bobagem mesmo. Aí, o jeito é correr para o banheiro o colocar para fora porque dói. Eu até tentei suportar a pressão algumas vezes, mas não deu. A solução foi aprender a comer corretamente. Comer corretamente e usando uma cinta, o que é pior!
A cinta não tem jeito. Se você abriu a barriga, só lamento, vai ter que usar. As minhas agora já estão quase como parte do meu corpo. Até dormir com elas eu durmo, simplesmente porque me esqueço de tirar.
Experiências? Claro que fiz! Descobri que estou odiando Coca-Cola. Jamais imaginei que um dia isso iria acontecer. Depois de 3 meses sem beber, acho que me livrei. Era o meu único vício. Como vai ser agora? :-)
Doce??? Claro que experimentei!! Sei que não devia, mas a curiosidade para saber se teria o tal do dumping era maior, assim sofreria tudo de uma só vez. Não tive dumping.
Depressão??? Encarei. Uma semana direto deitada na cama vendo TV, falando o mínimo necessário para me comunicar e sem saco até para tomar banho. Felizmente passou. Não me cortei toda para ficar deprê. Cruzes!!! Se preciso, vou até tomar uns passes caso a pavorosa volte a atacar.
Trabalho??? Estou louca para voltar. Mesmo sabendo que tem muita lenha pela frente, que vai estar um forno no 30º andar porque o ar-condicinado não funciona, que vou ter que levar um ventilador, que as baratas estarão correndo por toda a sala. Quero voltar. Amanhã vou encarar a perícia no INSS e, se tudo der certo, semana que vem estou voltando. Espero que o médico não detone a minha intenção de voltar. Mais um mês em casa e eu enlouqueço. Se ao menos estivesse com grana sobrando, poderia viajar e sair deste calor infernal. Mas não rola grana, então, trabalhar é melhor.
Experiência assustadora?? A primeira refeição fora de casa. Já comi fora 3 vezes. Na primeira, comi batata assada com carne moída. Tranqüilo. Na segunda, no meu aniversário, na companhia da minha irmã querida Carla, raviolli de ricota. Comi um quarto do prato. Na terceira, pedi uma salada. Sobrou tanto que levei para casa e ainda comi por dois dias.
Peso atual??? Sei lá. Só me peso na clínica e só estarei lá na quinta-feira. Visualmente me sinto num platô desde a última pesagem, o que seria perfeitamente normal já que com um mês e 15 dias eu tinha deixado 20 quilos para trás. Aí não tem jeito. O organismo reage e o jeito é esperar que ele compreenda que você não irá matá-lo de fome, apenas reduziu a quantidade. Muita calma nessa hora, ou a ansiedade vai acabar com você.
Como estou me sentindo???? Fisicamente bem. Quando saio sob esse sol escaldante e não sinto que vou morrer a cada passo, tenho certeza de que tomei a decisão correta. Emocionalmente estou instável. E acho que ainda ficarei por algum tempo por que estou mudando. O corpo está mudando e a cabeça precisa se adaptar para ajudar e suportar essa mudança. Talvez, depois que eu conseguir voltar a chorar tudo se resolva. É trabalho devagar e constante.
Segredo: estou a-d-o-r-a-n-d-o perceber que minha bunda está menor. Sutilmente menor, mas o suficiente para me deixar muito feliz.